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Morro da Boa Esperança desmorona em Niterói

Sobe para 9 total de mortos em deslizamento em Niterói

Por Karilayn Areias e Rafael Nascimento | O Dia

Um desmoronamento na Estrada Francisco da Cruz Nunes, no Morro da Boa Esperança, em Niterói, na Região Metropolitana, deixou nove mortos e, ao menos, onze feridos. Segundo o Corpo de Bombeiros, a corporação foi acionada por volta das 5h deste sábado e cinco casas teriam sido atingidas. Os Bombeiros, agentes da saúde, assistentes sociais, Defesa Civil, Secretaria de Obras, de Conservação e Serviços Públicos estão no local e fazem um levantamento para avaliar a gravidade da situação. O DIA apurou com as Defesas Civil Estadual e Municipal e com o Corpo de Bombeiros que o deslizamento ocorreu por conta do deslocamento de um maciço. Por estar coberto por vegetação, essa formação não era perceptível para os moradores.

Segundo essas fontes, esse é um processo geológico natural. Ou seja, não pode ser previsto. No local, também não poderiam ser construídas moradias.

Os mortos listados pelo Corpo de Bombeiros são: Janete, 55 anos; Maria Madalena, 56 anos; Maria do Carmo, 80 anos; Claudiomar, 37 anos; um menino de 3 anos; uma menina de 9 anos; e uma mulher adulta. Há duas pessoas que ainda não foram identificadas. Já entre os feridos estão um bebê e uma mulher, que foram socorridos para Hospital Estadual Azevedo Lima. Ainda não há informações sobre o estado de saúde deles.

“Choveu muito em Niterói nesses últimos dias e o município estava em estágio de alerta e as pessoas estavam avisadas para buscar locais seguros”, informou o comandante do Corpo de Bombeiros, Roberto Robadey. O trabalho dos bombeiros devem durar pelo menos 48 horas.

Já o presidente da associação de moradores, Claudio dos Santos, disse que as casas estavam interditadas pela Defesa Civil, mas os moradores não queriam sair. “Cheguei a avisar que estava preocupado com a chuva, que era para saírem, mas morador é complicado”.

Morro da Esperança desmorona em Niterói – Reprodução Facebook

A dona de casa Bia Lima, de 34 anos, relatou que o momento do deslizamento “foi parecido como um estrondo de transformador explodindo”. “As pessoas que estava passando na rua, acredito que seja pra trabalhar, começaram a gritar desesperadas”, lembrou a mulher. Moradores também relataram que choveu na região por quatro dias consecutivos.

O motorista Edson Vanderson Santos, de 40 anos, relatou que entre os mortos está o seu amigo — carinhosamente conhecido como “Peroba”. “Sempre pedi pra ele sair porque tinha uma pedra e um barranco. Onde ele morava, infelizmente, era horrível mas ele precisava morar. Estou arrasado com o que aconteceu”, diz o homem que durante todo o tempo acompanhava a remoção dos corpos e do escombro.

Vítima é retirada com vida por bombeiros no morro da Boa Esperança – Maíra Coelho

Questionada sobre a política de prevenção de acidentes deste tipo, a Prefeitura de Niterói informou que, desde 2013, investiu R$ 150 milhões em obras de contenções de encostas na cidade. Ainda de acordo com a prefeitura, uma base de apoio para o acolhimento das famílias desabrigadas foi montada no Colégio Estadual Portugal Neves, em Ipiratininga (Niterói). No local, estão sendo oferecidas refeições e cestas básicas.

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Em nota, o governador eleito Wilson Witzel (PSC), informou que lamenta “o ocorrido e se solidariza com familiares e amigos das vítimas.”

Na próxima segunda-feira, o vereador do Paulo Eduardo Gomes (Psol) e outros políticos prometem ir à Câmara Municipal de Niterói ao gabinete do prefeito Rodrigo Neves para buscar mais informações sobre o deslizamento da comunidade da Boa Esperança. “Nós faremos uma oposição crítica e não vamos ficar como abutres sobre essa situação. Queremos descobrir se isso foi um acidente ou uma negligência. Aqui mesmo, a secretária de planejamento, Giovana Victer, disse que essa comunidade não constava como área de risco. O que fica claro aqui é a incapacidade de perceber e prevenir um desastre”, avalia Paulo Eduardo.

Defesa Civil: região não era diagnosticada como de alto risco geológico

Cerca de 200 profissionais da Defesa Civil de Niterói, secretarias de Obras, Conservação, Assistência Social, Saúde e Companhia de Limpeza estão, desde as primeiras horas da manhã, trabalhando de forma integrada com as equipes do Corpo de Bombeiros e da Defesa Civil Estadual no socorro às vítimas do rompimento do maciço. Agentes da NitTrans e da Guarda Municipal estão coordenando o acesso à região.

A região não era diagnosticada como de alto risco geológico dentro do mapeamento de risco do Departamento de Recursos Minerais do Governo do Estado (DRM), que norteia a atuação da Defesa Civil.

O município montou uma base de apoio na Escola Municipal Francisco Portugal Neves, em Piratininga, que está recebendo os desabrigados. A Secretaria Municipal de Assistência Social e Direitos Humanos está providenciando a alimentação no local e a doação de cestas básicas para as famílias que optarem por ficar com familiares e amigos.

Desde 2013, a Prefeitura de Niterói fez cerca 70 obras de contenção de encostas, entregou mais de 3 mil casas populares e está desenvolvendo um trabalho específico, focado em áreas de alto risco geológico.

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A Prefeitura municipalizou sistema de alertas e alarmes por sirenes em setembro de 2016, quando o Governo do Estado anunciou que não poderia arcar com a manutenção dos equipamentos. Em nenhum momento o serviço deixou de funcionar na cidade e, atualmente, Niterói conta com 33 sirenes de alerta para desastres naturais em 28 pontos, além de 51 pluviômetros. Já foram implantados 52 Núcleos Comunitários de Defesa Civil (Nudec), com 200 voluntários capacitados em primeiros socorros, prevenção e combate a incêndio, percepção de riscos geológicos, sistema de alerta e alarme e gestão de voluntariado.

O município também criou o grupo Executivo para o Crescimento Ordenado e Preservação das Áreas Verdes, que realiza a fiscalização em áreas verdes e a prevenção do crescimento desordenado. Só no último ano, foram realizadas 120 demolições de construções irregulares na cidade.  Em caso de emergência, a população pode acionar a Defesa Civil pelos telefones 199, 2717-2631 e 2620-0199.

O prefeito Rodrigo Neves (PDT) disse que a região não foi definida como prioritária no mapeamento de risco do Departamento de Recursos Minerais do Estado do Rio de Janeiro e que, deste modo, não havia casas interditadas. “Não foi deslizamento de encosta, mas rachadura de um maciço de Área de Preservação Ambiental (APA), portanto não havia necessidade de contenção de encosta”, afirmou Neves que estava em Barcelona, na Espanha no momento do deslizamento. Entretanto, a Defesa Civil do município já havia interditado sete casas e uma pizzaria, no último ano, após uma queda de barreira na mesma localidade.

Morro do Bumba

Há oito anos, Niterói sofreu tragédia semelhante: 46 pessoas morreram no desmoronamento do Morro do Bumba. O principal motivo para a catástrofe foi a construção de casas em um terreno instável, onde no passado havia um lixão.

De lá para cá, a região voltou a ser habitada, pois moradores alegam que com o dinheiro recebido pelo aluguel social, de R$ 400, não conseguem pagar uma casa que não seja em área de risco.