Educação

O perfil empreendedor das gerações

Professor do curso de Administração da Uniara analisa como elas veem as possibilidades de investimento em negócios

Professor do curso de Administração da Uniara analisa como elas veem as possibilidades de investimento em negócios

O quão diferente é a linha de pensamento entre gerações quando o assunto é o empreendedorismo? O professor do curso de Administração da Universidade de Araraquara – Uniara, Gustavo Marques, analisa o modo de pensamento de diferentes gerações em relação a investir em negócios.

Antes de mais nada, o docente faz uma contextualização em relação às gerações Baby Boomer, X, Y e Z, e os Millennials. “Elas estão bem calcadas nas décadas em que nasceram. A Baby Boomer é a do pós-guerra, nascida por volta dos anos cinquenta ou sessenta, em um cenário de grande expectativa e de fortes aberturas social e cultural, porém, com uma visão de futuro muito incerto, mas que tenderia a ser melhor”, explica.

“Já a geração X, nascida na década de setenta e começo de oitenta, não viveu as consequências imediatas da guerra. No Brasil, podemos dizer que é uma geração que cresceu fora da ditatura. Avançando para a Y, de meados da década de oitenta até o final da década de noventa, ela encontrou um Brasil muito mais aberto ao mundo e a oportunidades, e teve chance de estudar mais e de acesso a um número maior de informações”, detalha.

Marques aponta que a geração Z e os Millennials nasceram na década de dois mil “e hoje estão entrando na universidade sem preocupações, por exemplo, com a escassez de produtos básicos, ou inflação, ou seja, não sabem o que é ficar sem coisas básicas, e têm total liberdade para sonharem e se arriscarem”.

Na questão empreendedora, o professor comenta que os Baby Boomers e a geração X investem principalmente em áreas de risco muito baixo, “precisando muito ir para uma certeza e, ao mesmo tempo, eles quebraram paradigmas”. “A carteira de trabalho e o emprego fixo eram extremamente importantes. O perfil de quem empreendeu, dos Baby Boomers e até um pouco da geração X, é de pessoas muito corajosas, que não foram preparadas – não houve, no estudo delas, um incentivo na questão do empreender. Aliás, nem tiveram essa opção. Então, foram pessoas que empreenderam por necessidade e estão, inclusive, até hoje assim”, esclarece.

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Em uma situação em que determinado indivíduo dessas gerações perde o emprego, segundo o docente, “ele agora se vê diante de uma condição em que não sabe como irá sobreviver, e percebe que a única solução é empreender”. “É uma idade um pouco avançada, e ele tem o perfil muitas vezes ótimo – formações, cursos técnicos, especializações, enfim, um bom currículo -, que assusta as empresas, que alegam não conseguirem pagar o salário que ele recebia. Assim, resta a ele empreender usando sua experiência”, aponta.

Mesmo com grande bagagem, na visão de Marques, os Baby Boomers “não têm a mesma disposição para riscos, pois ainda têm filhos para cuidar, por exemplo, mesmo que sejam maiores”. “O risco impacta muito a capacidade de empreender. Para essas pessoas, é preciso planejar bastante e, quando dedicam-se mais tempo a colocar um projeto no papel, realmente tende-se a reduzir riscos. Esse é um caminho para empreender e se manter relativamente atualizado”, diz.

Para essas pessoas, o ensino formal é importante – “ela está acostumada a aprender”. “Poder usar as facilidades das pós-graduações ajuda a manter isso e a transição de geração”, observa.

A geração Y, de acordo com ele, “já foi um pouco mais ‘provocada’ para isso, porém, vive, de certo modo, no dilema de ter um emprego igual ao dos pais, por incentivo deles, ao mesmo tempo em que já vê como as tecnologias ajudam, e as oportunidades estão aí”. “Por exemplo, ela faz um curso de MBA, percebe outras opções, viaja e enxerga oportunidades de empreender, não só por necessidade. Em geral, vive uma situação financeira relativamente estável, melhor que a dos pais, e não quer sair de casa, entretanto, tem respaldo, de modo que vai empreender mais por oportunidade”, completa.

Já a Millennials “chega a ser uma incógnita, mas já vê no empreendedorismo o fato de ter que gerar um negócio como algo extremamente natural”. “Ela sabe que pode se arriscar, já que os avós e pais têm boas condições financeiras – os pais estão crescendo na carreira e darão suporte.

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Por outro lado, é uma geração que não se prende a nada, fica em um dilema sobre empreender e enjoa das coisas rapidamente por estar acostumada a tudo muito rápido e fácil, intuitivo. Às vezes sofre um pouco com isso, pois acha os processos tradicionais muito maçantes. Acredito que essa geração irá empreender muito nos segmentos de tecnologia, entretenimento e estética, que são caminhos adequados para ela”, opina o professor.

Para a geração Z, o conselho de Marques é “não ‘colocar o carro na frente dos bois’ e respeitar a experiência”. “Quando essa geração vai para o mercado, empreender e criar suas startups, muitas vezes peca na hora de apresentar seu negócio para investidores e parceiros. O capital está na mão da geração Baby Boomer, mais experiente, que enxerga a oportunidade de outra forma. Às vezes, portanto, falta mais paciência e planejamento para a Z. É preciso procurar essa experiência, que é uma das etapas importantes do planejamento de uma empresa – conversar com especialistas e investigar a história para poder empreender com mais certeza”, ressalta.

O profissional, entretanto, precisa tomar cuidado com os rótulos, de acordo com o professor. “Conheço pessoas que nasceram nas décadas de sessenta e setenta, e que têm ‘cabeça’ de Millennials, assim como conheço outras de dezessete anos que têm mentalidade de Baby Boomer e estão um pouco avesso às tecnologias. Não é só porque nasci, por exemplo, na geração Baby Boomer – que não usava computador ou se relacionava em redes sociais – que não irei interagir com novas tecnologias e entender que o mundo está mudando”, coloca.

Ele reforça que, “da mesma forma, quem nasceu nos anos dois mil também precisa saber o que havia no passado e entender que, às vezes, é preciso ter mais paciência e aguardar um pouco mais para as coisas se concretizarem”. “Nem tudo precisa ser rápido. É preciso saber respeitar as diferenças. Essa conversa de geração virou ‘muleta’. Isso não existe, e as pessoas precisam tomar cuidado com isso”, finaliza.

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