Saúde

Suicídio: a dor dos que ficam 

Vergonha, culpa, dúvidas, raiva… esses são alguns dos sentimentos experimentados por aqueles que perdem algum ente querido por suicídio. O luto dessas pessoas envolve tabus, estigmas, preconceitos e muita desinformação, ingredientes que podem afetar a saúde mental dos que ficam.

Em suicidologia, o termo “sobrevivente suicida” se refere a uma pessoa que está sofrendo após o suicídio de alguém próximo e não a alguém que sobreviveu a uma tentativa de suicídio.

O ato solitário e de profundo desespero tem um efeito potencialmente devastador em quem fica. Um estudo coordenado pela pesquisadora Julie Cerel, da Universidade do Kentucky (EUA), mostrou que aproximadamente 135 pessoas são impactadas com um único suicídio. Além disso, estima-se que 25 pessoas próximas da vítima podem tentar se matar ou ter ideias suicidas.

Isso significa que diante dos 12.495 suicídios registrados no Brasil em 2017, segundo dados do Ministério da Saúde, mais de 1,6 milhão de pessoas podem ter sido afetadas de alguma forma e, deste grupo, 300 mil podem vir a atentar contra a própria vida. O psicólogo norte-americano John R. Jordan, autor de diversos livros sobre o assunto e que trabalha há mais de 25 anos com sobreviventes suicidas, explica como isso se dá.

“As pessoas que conhecem alguém que morreu por suicídio têm 1,6 mais chance de ter ideias suicidas; 2,9 vezes mais chances de ter planos suicidas; e 3,7 vezes mais chances de tentar suicídio, em relação a outras pessoas que não conheciam [alguém vítima de suicídio].”

A morte por suicídio é normalmente violenta e repentina. Pode ser ainda que parentes e amigos tenham de lidar com investigações policiais e com a imprensa até que se tenha certeza do que aconteceu, o que adiciona ainda mais trauma a estas pessoas.

“Uma cena que até hoje me aterroriza”

“Tivemos um fim de semana normal com as nossas filhas e na segunda-feira encontrei meu marido morto, enforcado em casa”, conta Eliana* (nome trocado). “É uma cena que nunca vai sair da minha cabeça e até hoje me aterroriza.”

Foi o primeiro contato com o suicídio que a família teve, mas não seria o último. Dois anos depois, a filha mais velha do casal também tirou a própria vida, aos 18 anos. Mentalmente abalada após a morte do pai, a jovem entrou em um quadro depressivo que, apesar de ajuda especializada e medicamentos, agravou-se.

“É normal você se perguntar: ‘será que o suicídio do pai teve alguma influência na decisão dela?’ Eu nunca vou saber, tento não buscar muitas respostas porque sei que nunca vou encontrá-las. Meu objetivo hoje é me preservar e cuidar da minha outra filha, porque sei que precisamos uma da outra e é nela que busco forças para seguir.”

Tsunami existencial

“O suicídio para quem fica é um tsunami existencial. Mas o que você faz depois de um tsunami? Se reconstrói”, explica a psicóloga Karina Okajima Fukumitsu, autora de livros sobre o tema, incluindo Suicídio e luto: histórias de filhos sobreviventes; e Sobreviventes enlutados por suicídio – cuidados e intervenções, este último lançado neste mês.

Eliana relata a angústia de quando é perguntada sobre como perdeu o marido e a filha. “Falar de suicídio é para muita gente algo completamente inusitado. Tem quem me olha de cara feia, o que me deixa mal, porque eu não tenho culpa e não posso ter vergonha pelo que aconteceu.”

Uma das grandes dificuldades do sobrevivente é encontrar pessoas que não façam julgamentos.

“O que se matou não era corajoso, fraco, covarde… era uma pessoa que estava em intenso sofrimento. Quem sou eu para julgar quem estava em sofrimento? Quem está longe julga, quem está perto compreende”, diz Karina.

“Jamais vou fazer o que ele fez”

A jornalista Paula Fontenelle, autora do livro Suicídio: o futuro interrompido – guia para sobreviventes, e a irmã desenvolveram depressão após o pai se suicidar com um tiro, aos 58 anos, em 2005. Na publicação, ela relata a dificuldade de não ter sido um período de luto “normal”. 

O pai de Paula se matou aos 58 anos

O pai de Paula se matou aos 58 anos
Arquivo Pessoal

“As particularidades têm início logo cedo. Quando uma pessoa morre por motivos de doença, acidente, o que for, por mais desconfortável que seja, todos demonstram solidariedade imediata, querem saber dos detalhes, falam abertamente sobre a situação, oferecem conforto. No suicídio, não. O incômodo se expressa no silêncio, na ausência do que dizer, no inconformismo, na incredulidade. É como se as palavras fossem inúteis, como se nada pudesse amenizar a dor e essa reação vai alimentando, com o tempo, a nossa própria resistência em expor o que sentimos.”

Em entrevista ao R7, Paula conta que buscou respostas em livros após o suicídio do pai, mas como não achou no Brasil nada que pudesse ter as explicações que ela tentava achar, resolveu escrever o próprio livro, que agora está sendo relançado em inglês, nos Estados Unidos.

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“Apesar de o livro ter me ajudado no longo prazo, enquanto eu escrevia, acabava revivendo muitas coisas e isso teve um impacto negativo. Comecei a sentir uma tristeza que vinha do nada, dores físicas, dificuldade de concentração.” Paula e a irmã foram diagnosticadas com depressão.

“A minha irmã teve depressão antes de mim. Ela passou por uma coisa que não passei, porque eu estava de férias nos Estados Unidos quando ele morreu. Ela viu meu pai um dia antes de ele se matar, percebeu que ele não estava bem. Então ela se sentiu muito culpada.”

Mesmo assim, a jornalista diz que as duas nunca pensaram em tirar a própria vida. “Lembro que ela me falou: ‘Eu jamais vou fazer o que ele fez, não vou fazer minha filha passar pelo que eu estou passando.”

Atualmente, Paula mantém um site no qual compartilha informações e orientações sobre o assunto.

Suicídios em alta no país

O número de pessoas mortas por suicídio no Brasil cresce ano após ano desde 2002. Apenas em 2017, a alta foi de 9,3%, na comparação com o ano anterior, segundo dados do Ministério da Saúde. A taxa é de 6 óbitos por 100 mil habitantes.

Mortes autoprovocadas intencionalmente são a terceira maior causa de óbito por causas externas (que não sejam doenças, por exemplo), com 12,4 mil casos no Brasil em 2017, atrás apenas de acidentes (68,5 mil) e agressões (63,7 mil).

A maior parte dos óbitos decorrentes de suicídio ocorre nas faixas etárias de 20 a 39 anos (5.009 casos, com aumento de 8,65% em 2017) e de 40 a 59 anos (4.195, alta de 7,67%). Entre os idosos, foram 2.210 suicídios (alta de 10,72%).

No entanto, o que chama atenção é o crescimento acima das demais idades nos suicídios no grupo com idades entre 10 e 19 anos: 1.047 casos — alta de 16,72%.

Karina Fukumitsu: nem todos que pensam em suicídio tiram a vida

Karina Fukumitsu: nem todos que pensam em suicídio tiram a vida Arquivo Pessoal

A Associação Brasileira de Psiquiatria estima que 17% dos brasileiros (35,5 milhões) já pensaram em suicídio. No entanto, entre pensar e planejar há uma diferença. Nem todos os que pensam em tirar a própria vida vão de fato levar a ideia adiante, observa a psicóloga Karina Fukumitsu. “O comportamento suicida envolve o pensamento, a ideação, o planejamento e o ato em si.”

O suicídio é um ato definitivo para um problema temporário

(Karina Fukumitsu)

Segundo ela, ao contrário do que muitos pensam, “o suicídio não é contagioso”. “O grande vilão que a gente tem que atacar é o sofrimento. É o sofrimento que provoca as pessoas a pensarem em se matar”, acrescenta.

“Ela dizia que estava tudo errado”

Marina Guedes Maximo adorava tocar violão e estudar línguas. Fluente em inglês, estava aprendendo francês e catalão e estudava filosofia. A depressão a levou, aos 19 anos, ao suicídio. A jovem ficou internada por 20 dias após uma intoxicação exógena proposital. Chegou a acordar do coma e conversar com a mãe, mas não resistiu a uma infecção que contraiu no próprio hospital.

Segundo a mãe, Marina adorava tocar violão

Segundo a mãe, Marina adorava tocar violão Arquivo Pessoal

A história de Marina faz parte da estatística alarmante do aumento dos suicídios de jovens no Brasil. A Organização Mundial da Saúde constatou que a depressão é a principal doença entre indivíduos de 10 a 19 anos.

Um estudo publicado na Revista Brasileira de Psiquiatria, coordenado pela médica Denisse Jaen-Varas, em 2018, mostrou que a taxa de suicídio de adolescentes aumentou 24% em seis grandes cidades brasileiras (Porto Alegre, Recife, Belo Horizonte, Salvador, Rio de Janeiro e São Paulo), entre 2006 e 2015.

“Eu entendi que a Marina naquele dia não acordou com a intenção. Ela já vinha há um bom tempo, tanto que ela externava isso, falava que queria morrer. Eu perguntava e ela dizia que estava tudo errado, que a vida dela estava parecendo uma desventura em série. Realmente, ela vinha de um processo de várias coisas darem errado na vida dela. Eu sempre falava: ‘Marina, minha filha, isso é a vida, faz parte'”, conta a mãe da jovem, Terezinha Maximo.

A dor que se seguiu após a perda da filha fez com que Terezinha começasse a escrever. Era a válvula de escape dela. Uma das perguntas que mais teve que ouvir era: “por que ela fez isso?”

“Essa é uma pergunta que foi com ela. Eu também não sei responder. Ela estava doente. São perguntas que as pessoas fazem para a gente e que ficam martelando com o tempo.”

Além dos textos, que relatavam tudo o que estava passando, a mãe de Marina começou a pesquisar sobre o tema, frequentou grupos de apoio e, em novembro de 2017, colocou no ar o site No m’oblidis, juntamente com o marido, Joseval.

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“Seis meses depois que a Marina faleceu, eu descobri no WhatsApp dela… ela tinha deixado uma mensagem [no status], ‘si us plau, no m’oblidis’. Ela estava estudando francês e queria aprender catalão, que falava que era muito mais fácil e bonito do que francês. Eu nunca tive a curiosidade de saber o que queria dizer a frase. No dia 29 de setembro [de 2017], eu resolvi ver e era ‘por favor, não me esqueça’. Achei que fosse um pedido.”

Na mesma época, Terezinha foi a um simpósio sobre suicídios e ouviu a história de uma família que resolveu criar um instituto após a perda de um parente.

“Eu falei, não posso fazer um instituto, mas vou fazer um blog, contando o meu processo de luto, do dia que ela faleceu até então. Desse blog veio um grupo de apoio aqui no ABC, que foi o primeiro e acredito que seja o único desse tipo, que acolhe pessoas que perderam alguém por suicídio”.

“Cenário perturbador”

Escalada para fazer uma série de reportagens sobre suicídio de jovens, a repórter da Record TV Cleisla Garcia se viu diante de um desafio, especialmente pelo fato de jornalistas não terem por hábito produzir matérias sobre o assunto.

“Achei que essa seria a pior pauta da minha vida. E, de alguma forma, foi. Fui criada numa sociedade e numa geração de jornalistas em que falar do autoextermínio poderia causar mortes, estimular um efeito ‘contágio'”, lembra.

Mesmo assim, Cleisla abraçou a missão e constatou um cenário perturbador no Brasil.

“Quando comecei a estudar as pautas, os livros, as pesquisas sobre o assunto, percebi a gravidade da situação, sempre escondida a sete chaves. […] O que mais me impactou foi saber que no Brasil estávamos invertendo a chamada curva da felicidade e que os jovens eram a faixa etária de maior crescimento nos números do suicídio.”

A imersão no assunto foi tanta que, ao final da série, Cleisla resolveu escrever um livro. Sobre viver: Como ajudar aqueles que você ama a se afastar do caminho do suicídio foi lançado no começo de 2018 e traz relatos de jovens que tentaram o suicídio, além de histórias de familiares de pessoas que interromperam a própria vida.

Nas entrevistas e conversas que teve, a jornalista entendeu que apesar de não estarem mais suscetíveis do que os adultos a sofrer de transtornos mentais, os jovens possuem componentes de vulnerabilidade “por conta de mudanças nas relações interpessoais, familiares e estilo de vida”.

Ela destaca a impulsividade à flor da pele durante a adolescência, além de casos de abuso de álcool e drogas e do excesso de vida virtual e pouca vida real.

Apoio ao sobrevivente

O psicólogo norte-americano Edwin Schneidman, um dos maiores estudiosos da suicidologia, escreveu que “a morte de uma pessoa não é somente um fim: é também um começo para os sobreviventes.”

A importância de acolher de maneira correta os enlutados pelo suicídio se reflete em proporcionar a eles o suporte que necessitam para minimizar o risco de quadros de estresse pós-traumático, depressão e até de suicídio.

É aí que entra a posvenção, descrita por Shneidman como “qualquer ato apropriado e de ajuda que aconteça após o suicídio com o objetivo de auxiliar os sobreviventes a viver mais, com mais produtividade e menos estresse que eles viveriam se não houvesse esse auxílio”.

Especialista em posvenção, a psicóloga Karen Scavacini, cofundadora do Instituto Vita Alere de Prevenção e Posvenção do Suicídio, lista em seu site os objetivos da posvenção, incluindo a prevenção do aparecimento de reações adversas e complicações do luto e a promoção de resistência e enfrentamento.

Centro de Valorização da Vida

O apoio pode ser encontrado em um telefonema ou em grupos de sobreviventes que se reúnem uma vez por mês. No CVV (Centro de Valorização da Vida), milhares de voluntários são treinados para acolher tanto os enlutados quanto aqueles que tentaram o suicídio.

A entidade, sem fins lucrativos, foi fundada há 57 anos e tem representação em 19 estados e no Distrito Federal. O telefone 188 (gratuito para todo o país) é o principal canal de atendimento.

Milhares de voluntários que integram o CVV (Centro de Valorização da Vida), entidade sem fins lucrativos, trabalham diariamente

Mas também é possível entrar em contato pelo chat no site, onde há uma lista de endereços físicos das unidades.

“Sofrimento acolhido transforma, sofrimento omitido causa perturbação”, resume Karina.

R7

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